Saiu na Edição Especial da Revista
Bravo "100 canções essenciais da música brasileira", 2008:
"100/ Cantiga de amigo
- Elomar
Já pelo título, essa música
remete às influências medievais que fazem o universo poético-musical de Elomar
ser tão peculiar. As cantigas de amigo ibéricas eram escritas com eu lírico
feminino - no que se diferencia dessa música. No entanto, Cantiga de
amigo se aproxima dos valores medievais na temática, ao abordar a ausência
da pessoa amada. Mesmo na forma, versos como 'Madreamiga é ruim/Me mentiu
jurando amorque não tem fim' se assemelham aos de obras de dom Dinis e outros
autores portugueses. Essa canção trovadoresca aparece em seu primeiro disco,
...Das Barrancas do Rio Gavião (1972), álbum em que também estão O
Violeiro e O Pedido, outras músicas de relativo sucesso. O
toque característico de violão, em geral com afinação distintada
convencional, reforça a melodia do canto - mais um traço medieval. Aqui,
diferentemente de boa parte de sua obra, Eloma não canta em 'sertanês' - o
dialeo próprio de suas composições.
Baiano de Vitória
da Conquista, nascido em 1937, Elomar teve contato na adolescência com
menestréis e cantadores itinerantes do sertão. Em Salvador, estudou arquitetura
e música erudita e, da junção de sua formação acadêmica com a da juventude,
desenvolveu um estilo único. Foi nos sons da penísula ibérica medieval que
Elomar vislumbrou as origens da cultura do sertão nordestino, tato nos aspectos
propriamente ibéricos como nos traços árabes. Contruiu, então, sua obra com base
em duas sínteses: entre o erudito e o popular e entre o medieval europeu e o
sertão nordestino atemporal." P. 111
FAÇAMOS, VAMOS AMAR... (E TEM GENTE QUE NÃO GOSTA DE LITERATURA!)
Estava ajudando uma menina com Literatura
Brasileira, o tema da atividade dela era "arcadismo no Brasil", mas foi muito
bacana porque eu pude sair daquela pasmaceira de "contexto histórico"
e ler algumas liras...
Eu adorei essa aqui, de Tomás Antonio Gonzaga
- o Dirceu- para sua amada Marília, na Lira VIII:
Marília, de que te queixas? De que te roubou Dirceu O sincero
coração? Não te deu também o seu? E tu, Marília, primeiro Não lhe
lançaste o grilhão? Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria
ter isenção?
Em torno das castas pombas, Não rulam ternos pombinhos? E rulam,
Marília, em vão? Não se afagam c'os biquinhos? E a prova de mais
ternura Não os arrasta a paixão? Todos amam: só Marília Desta Lei da
Natureza Queria ter isenção?
Já viste, minha Marília, Avezinhas, que não façam Os seus ninhos no
verão? Aquelas, com que se enlaçam, Não vão cantar-lhes defronte Do
mole pouso, em que estão? Todos amam: só Marília Desta Lei da
Natureza Queria ter isenção?
Se os peixes, Marília, geram Nos bravos mares, e rios, Tudo efeitos
de Amor são. Amam os brutos impios, A serpente venenosa, A onça, o
tigre, o leão. Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter
isenção?
As grandes Deusas do Céu Sentem a seta tirana Da amorosa
inclinação. Diana, com ser Diana, Não se abrasa, não suspira Pelo amor
de Endimião? Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter
isenção?
Desiste, Marília bela, De uma queixa sustentada Só na altiva
opinião. Esta chama é inspirada Pelo Céu; pois nela assenta A nossa
conservação. Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Não deve ter
isenção.
Ora, ora, se todos amam, inclusive Marília, cantemos a
música de Cole Porter, que em versão para o português ficou clara e direta:
FAÇAMOS, VAMOS AMAR: